Na primeira vez que vi Os Incompreendidos, estava dando aula para jovens, e estava justamente chocado com o abismo de comunicação que se coloca entre as gerações. Quando eu era jovem não era entendido pelos adultos, mas isso era por que eles eram antiquados e caretas, mas de repente eu vi que os da minha idade, agora adultos, também não se esforçavam por entender os jovens de então. Isso me deu a sensação que tínhamos perdido algo pelo caminho. Esse cenário produziu a profunda empatia que sinto pelo personagem de Antoine Doinel.
Personagem esse que, reza a lenda, carrega muito da vida de Truffaut, que também era uma criança rebelde e que matava aula pra ir ao cinema, um bem para o Cinema mundial. Mas a construção de Antoine não ocorre apenas no carinho com que foi escrito por Truffaut, mas se completa com a brilhante e espontânea interpretação de Jean-Pierre Léaud, uma espécie de James Dean infantil francês. Essa parceria em que cada um coloca um pouco de si nesse personagem tão querido perdurou por décadas, em mais quatro ou cinco filmes, onde podemos encontrar Antoine em diferentes fases da vida, como um amigo querido.
Mas além de um filme de sentimentos pessoais, Os Incompreendidos (raro caso de boa tradução do título), primeiro longa de Truffaut, é considerado como uma das pedras fundamentais do movimento da Nova Onda francesa, que revolucionou a forma de fazer cinema no mundo todo.
Assim como a inesquecível seqüência final, esse é um filme marcante, que eu guardo na memória como grande carinho, como um dos melhores que já tive oportunidade de ver.