sexta-feira, 12 de outubro de 2012

INÍCIOS INESQUECÍVEIS - “A Jangada de Pedra”


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“Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenétis Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador. Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados. Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para a toda restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região. Mas, não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilômetros de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos lembraremos mais tarde, bastou que a mulher chamada Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para que todos os cães de além saíssem à rua vociferantes, eles que, repete-se, nunca tinham ladrado. ”
José Saramago, 1988

domingo, 2 de outubro de 2011

HOJE (Tata Amaral, 2011)


Eu sempre acho que a melhor forma do cinema retratar um tema político, histórico ou social é acompanhando um drama individual. O filme de Tata Amaral faz isso brilhantemente. Focando apenas em uma mulher – Denise Fraga realmente ótima num papel que remete ao da minissérie Queridos Amigos – somente no cenário de um apartamento, todos os traumas que quem foi submetido ao chumbo da ditadura são apresentados.

Ao se mudar para o imóvel próprio, semiose bem brasileira pra um momento tão importante, a personagem de Denise é confrontada pelos fantasmas da memória, encarnados por Cesar Troncoso, numa cara mistura entre fantasia e realidade dolorosa.

E como o macro é representado por meio do micro, uma das ferramentas utilizadas é a minha querida expressão oral no cinema.

TRABALHAR CANSA (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011)


Expectativa é foda. Pelo fato de ter sido selecionado pelo Un Certain Regard de Cannes, eu esperava muitas desse filme. E é sabido que quanto maior a expectativa maior é a decepção.

Embora seja bem feito e tenha recebido prêmios no Festival de Paulínia, esse filme não me agradou. Os atores estão muito bem mas os personagens não conseguem gerar simpatia.

A primeira parte do filme é uma autêntica epopeia classe-média-sofre. A atitude perante os perrengues do desemprego e da abertura de um negócio próprio justificam o título do longa. Existe uma sensação de medo e desconfiança perante os funcionários que me impediu de criar alguma empatia pela protagonista. E isso é sentido no terço final, quando a história fica esquisita e só. E nesse caso a falta de sentido fica apenas ocupando espaço, pois não houve uma prévia aproximação do espectador.


AS HIPER MULHERES (Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, 2011)


O título remete à tradução dada ao Jamurikumalu, ritual Kuikuro que celebra um mito de independência e empoderamento feminino. Mas é bom ressaltar que nenhuma mulher retratada no filme carrega esse adjetivo. E é no aspecto prosaico de suas vidas que as protagonistas garantem tanta simpatia. Como diria Rita Lee, toda mulher – mesmo as índias – são meio Leila Diniz.

Chama a atenção como as mulheres Kuikuro são, aparentemente, mais liberadas sexualmente que os homens, pelo menos em frente às câmeras. Câmeras, aliás, que revelam um aspecto mais próximo do cotidiano, já que o registro foi feito dentro do projeto Vídeo nas Aldeias, isso fez o filme fugir do esteriótipo de “documentário de índio” e apresentar a história com muita naturalidade. O filme, ganhador de dois prêmios no Festival de Gramado, ainda conta com a beleza espontânea das paisagens do Xingu e dos cânticos e coreografias apresentadas. 
 
Gostei demasiado do filme pelo tema, personagens e local. E me lembrou muito o outro grande documentário que vi esse ano, Terra deu Terra come. Eu fico encantado em como em ambos os casos, na tradição indígena e quilombola, a imaginação e a invenção são peças importantes e integrantes da perpetuação e transmissão dos costumes e da história.

domingo, 25 de setembro de 2011

GLEE 3D: O FILME (Kevin Tancharoen, 2011)


O filme padece do mal que acompanha a série desde sua segunda temporada. A série de Ryan Murphy assumiu o papel de ser o porta-voz desses jovens que sofrem bullying e precisam se aceitar como são. Com isso deixou pra trás um humor ácido e meio subversivo que tinha na primeira temporada.

Ao acompanhar a trajetória de três adolescentes que tiveram suas vidas tocadas pela série (uma líder de torcida anã, uma guria com fobia social e um menino gay) e a forma como eles descobriram que devem se aceitar como são e agente nasceu desse jeito e blá-blá-blá, o filme perde um precioso tempo em mostrar o que interessa, que são os números musicais. E inclusive veta parte da coreografia pélvica do Puckerman pra não ofender as famílias.

E vendo o filme, percebi que os maiores destaques do elenco são femininos. Dos garotos se pode apontar o novato Darren Criss que é um tremendo charme e espetacular dançarino que é Harry Shum Jr.. Agora o time das meninas é farto em destaque. A começar pela Lea Michele - a Barbra Streisand que tem pra hoje – incrível notar como em momento nenhum ela abandona a personagem da Rachel, inclusive quando encara a câmera. Seguindo, temos a Dianna Agron, o mais lindo novo rosto de Roliúde. Naya Rivera é linda, canta demais e tem o personagem mais divertido. E ainda temos loiraça Heather Morris que arrasa no número da Britney, com uns peitos que não deixam nada a dever aos da Katherine Heigl, e como dança a menina!

No mais somente senti falta de mais números comandados pela Lea Michele. É esse bom-mocismo de dar oportunidade a todos prejudicando o resultado do espetáculo. Um dilema digno de Glee.

O GRANDE DITADOR (Charles Chaplin, 1940)


Um dos papéis do Cinema é registrar a história enquanto ela ainda está acontecendo. E o mais impressionante é poder tratar de temas tão sérios usando outras formas de narrativa. Esse filme é um pouco disso tudo. Lançado no ano posterior à invasão da Polônia e enquanto os EUA adotavam uma política de neutralidade perante o conflito, a primeira comédia falada de Chaplin faz uma denúncia do Nazismo e da perseguição aos judeus.

Interpretando dois papéis, Chaplin se sai melhor fazendo o Ditador, que consegue se expressar mesmo falando em uma língua que não existe. Impossível não lembrar da icônica cena com o globo. Outro momento marcante é o discurso final, quando o barbeiro judeu é confundido com o Comandante e Chaplin constrói um inesquecível apelo à paz e aos direitos humanos.



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Alfred Hitchcock, 1940)


Quero começar falando das duas protagonistas desse filme, uma com cara mas sem nome, outra com nome mas sem cara. A primeira interpretada tão bem por Joan Fontaine que nem sentimos falta de Vivien Leigh (talvez por isso mesmo); a outra uma das maiores personagens inexistentes da história. Podemos dizer que se trata de um filme de fantasma de tanto que a presença da mulher do título se faz concreta. 

A estreia de Hitchcock em Roliúde lhe rendeu seu único título laureado com o Oscar de Melhor Filme, e olha que foi sobre As Vinhas da Ira! Mas é isso que resulta desse gênio adaptando um clássico como o de Daphne Du Maurier. É incrível como esse homem tem o pleno domínio de todos os aspectos da narrativa, mesmo ela tendo tantas reviravoltas que pode ser considerada três filmes em um só. E o cenário de Manderley se transforma em um personagem concreto e misterioso como todos os outros. Isso pra não falar de um elenco que além da supra citada Fontaine ainda tem o tremendo charme de um Laurence Olivier e grandes coadjuvantes como George Sanders e Judith Anderson.

Ainda somos presenteados com um dos grandes momentos da tradição oral no cinema. 

Pronto! Não vou mais babar ovo.