domingo, 2 de outubro de 2011

HOJE (Tata Amaral, 2011)


Eu sempre acho que a melhor forma do cinema retratar um tema político, histórico ou social é acompanhando um drama individual. O filme de Tata Amaral faz isso brilhantemente. Focando apenas em uma mulher – Denise Fraga realmente ótima num papel que remete ao da minissérie Queridos Amigos – somente no cenário de um apartamento, todos os traumas que quem foi submetido ao chumbo da ditadura são apresentados.

Ao se mudar para o imóvel próprio, semiose bem brasileira pra um momento tão importante, a personagem de Denise é confrontada pelos fantasmas da memória, encarnados por Cesar Troncoso, numa cara mistura entre fantasia e realidade dolorosa.

E como o macro é representado por meio do micro, uma das ferramentas utilizadas é a minha querida expressão oral no cinema.

TRABALHAR CANSA (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011)


Expectativa é foda. Pelo fato de ter sido selecionado pelo Un Certain Regard de Cannes, eu esperava muitas desse filme. E é sabido que quanto maior a expectativa maior é a decepção.

Embora seja bem feito e tenha recebido prêmios no Festival de Paulínia, esse filme não me agradou. Os atores estão muito bem mas os personagens não conseguem gerar simpatia.

A primeira parte do filme é uma autêntica epopeia classe-média-sofre. A atitude perante os perrengues do desemprego e da abertura de um negócio próprio justificam o título do longa. Existe uma sensação de medo e desconfiança perante os funcionários que me impediu de criar alguma empatia pela protagonista. E isso é sentido no terço final, quando a história fica esquisita e só. E nesse caso a falta de sentido fica apenas ocupando espaço, pois não houve uma prévia aproximação do espectador.


AS HIPER MULHERES (Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, 2011)


O título remete à tradução dada ao Jamurikumalu, ritual Kuikuro que celebra um mito de independência e empoderamento feminino. Mas é bom ressaltar que nenhuma mulher retratada no filme carrega esse adjetivo. E é no aspecto prosaico de suas vidas que as protagonistas garantem tanta simpatia. Como diria Rita Lee, toda mulher – mesmo as índias – são meio Leila Diniz.

Chama a atenção como as mulheres Kuikuro são, aparentemente, mais liberadas sexualmente que os homens, pelo menos em frente às câmeras. Câmeras, aliás, que revelam um aspecto mais próximo do cotidiano, já que o registro foi feito dentro do projeto Vídeo nas Aldeias, isso fez o filme fugir do esteriótipo de “documentário de índio” e apresentar a história com muita naturalidade. O filme, ganhador de dois prêmios no Festival de Gramado, ainda conta com a beleza espontânea das paisagens do Xingu e dos cânticos e coreografias apresentadas. 
 
Gostei demasiado do filme pelo tema, personagens e local. E me lembrou muito o outro grande documentário que vi esse ano, Terra deu Terra come. Eu fico encantado em como em ambos os casos, na tradição indígena e quilombola, a imaginação e a invenção são peças importantes e integrantes da perpetuação e transmissão dos costumes e da história.