“Encontrarão o ninho, é o que pensa. Nas costas, oculta pela mata, ficara a serra. A terra devia ter se contorcido, fervendo em lama, pedras e lavas em atrito, para faze-la o aleijão medonho. Erguendo-se da chapada, montanha que sobe em desaprumo, florestas e rochedos se abraçam nas quedas dos despenhadeiros. Furacão doido e bruto que rodava a torcera, como se fosse um pano molhado, e malhas são as nuvens que a rodeiam. O veto, detido pelas encostas do outro lado, não passa. Imagem nos olhos, enquanto anda, João Caio sabe que ali o homem e a mulher encontrarão o ninho.
Tudo, em seus olhos, se aloja. A serra demora a apagar-se, subsistindo aos pedaços, as florestas como crinas escuras. Em uma caverna ou em uma choça, agora livre como as feras, Cajango poderá dizer à mulher que uma vida ficou embaixo. É possível que tenha atravessado a chapada abrindo caminho no capinzal. Esperava-o a serra, tromba de mil voltas na arrancada para o céu. As pálpebras não descem, Bem-Bem atrás, o bando na frente.
Regressam, os pés na mesma trilha, a mata calada como as bocas. Muito andarão ainda para que possam sentir o vento. Os rifles, nos ombros e nas mãos, começam a pesar. Nele, João Caio, os olhos se enchem de figuras. É a corda de couro, seu baque surdo. Os ouvidos comendo as palavras:
__ Era para enforcar Cajango.
Homens correndo, as fogueiras altas, Chico das Bonecas falando. Sentado está padrinho Abílio, os braços sobre o rifle, os músculos endurecidos na cara. As imagens passam devagar nos olhos quentes como em febre. O rifle, entre os braços de o Alto, vomita fogo. Dico Gaspar saltando, nu da cintura para cima, a faca nos dentes. Nervos que vão dos braços para as armas e nelas se planta a raiva dos homens. Berros acompanham os estampidos, dedo e gatilho uma só peça, nos canos o mesmo calor dos peitos. Quando ergue a mão, talvez para afastar as imagens, vê a pulseira de ferro. É curioso como o acompanhara, sempre no pulso, também uma testemunha. O pés continuam se movendo. Bem-Bem atrás, tem as mãos de menino, a boca murcha.
__ Para enforcar Cajango.
A corda no chão, o baque surdo, o suor escorrendo. Na hora, quando o espancaram, não arrancaram a pulseira de ferro. Ele os guiara, dias e dias, até que pôde mostrar a serra. A terra enrodilhada subindo como a ferir o céu. Nela, tendo a mulher ao lado, Cajango é o primeiro homem a viver. Pedras serão removidas por seus braços fortes. Alertas estarão os seus olhos verdes. Deve ter conhecido a alegria ao transpor o capinzal, sua mão apertando a mão da mulher, cheios de vida os corações batendo.
Os pés ainda se movendo. Anulam-se, pouco a pouco, os ruídos da mata. É a voz que sobe, como nascendo do sangue, a voz de padrinho Abílio. O rio encachoeirado não tem o seu eco. Os ouvidos a aceitam novamente, lenta e dura, blocos de pedras que poderiam rolar da montanha.”
Adonias Filho, 1962