A impressão que eu tenho de Almodóvar é que ele é apaixonado profundamente pelos filmes que faz, que se envolve com os personagens e suas histórias. E tudo que é feito com essa paixão e verdade consegue cativar e emocionar o público.
Na contramão da maioria dos filmes do diretor espanhol, pródigo em retratar dramas femininos, este filme é protagonizado por dois homens, mas eles orbitam em torno de duas mulheres em coma. A aproximação dos dois numa forte amizade é que conduz a sensibilíssima trama, que deu a Almodóvar o Oscar de Roteiro Original em 2003 (um ano realmente excepcional na premiação da Academia). E, como sempre acontece nos filmes do diretor, a história segue caminhos que você não imagina no início da projeção.
Além da paixão pelas histórias e personagens, eu vejo também uma paixão pelo próprio cinema, pelas imagens que dão vida a elas. Nesse filme isso fica evidente na homenagem ao cinema mudo e na belíssima cena da tourada. E como cinema é imagem e música, a trilha sonora ocupa um papel de destaque, principalmente para os brasileiro, com diversas citações de MPB ao longo do filme e a participação de Caetano Veloso em pessoa, em sua famosa interpretação de Cucurrucucú Paloma.