quinta-feira, 28 de abril de 2011

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Richard Brooks, 1957)


Colocar Liz Taylor e Paul Newman pra protagonizar um texto do Tennessee Williams é – como já ouvi em minha terra- uma extravagância com a concorrência em matéria de sedução. O que me encanta nesse filme (e nas demais obras de Tennessee) é como homem e mulher são tratados iguais. Iguais em qualidades e defeitos. Alías, nessa obra, tudo tem o mesmo peso: verdades e mentiras; vícios e virtudes; juventude e velhice; erros e acertos; ambição e generosidade; traição e perdão. Tudo é a mesma merda. Na vida, aparentemente, também é assim.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

DIREITO DE SER NADA (Violins, 2011)


“Declare-se urgência e transfiram-se todos pra cá
Vai começar belo o mais belo espetáculo que há”
Nossos Embrulhos

No dia de São Expedito último, a banda Violins lançou seu mais novo cd. Depois desaparecer, ressurgir das cinzas, lançar o apocalíptico-solar Greve das Navalhas, e de comemorar os dez anos da banda, Beto e sua turma entregam mais um disco bastante aguardado pelos fãs.

O disco começa com “É como está”, que logo no início lembra as icônicas “O Anti-Herói (parte 1”) e “Vendedor de Rins”.

“você não imagina do que eu sou capaz
pra retirar essa preocupação de mim
eu vou a pé e olha que eu moro em Goiás
eu minto bem, eu roubo banco, eu vendo rim”

Como todo disco da banda, Direito de Ser Nada gira sobre um único tema. E o tema dessa vez me é muito caro – justamente esse direito de ser nada, esse apaziguamento com nossas próprias ambições. Existe uma liberdade muito grande em se tornar totalmente responsável pelas próprias escolhas e as conseqüências boas e ruins que vêm delas.

Esse sentimento fica bastante claro em músicas como “O Grande Esforço”:

“eu caminhei livre com os pés firmes no breu
só pra espalhar cinzas do que fui e do que morreu
vou participar sempre da melhor parte de ser eu
é o grande esforço mas o alívio que te espera
não tem preço
não depende de ninguém
mas você mesmo
dá pra se arrisca”

Outra música onde fica expresso claramente tal pensamento é “Nenhum Caminho”, uma de minhas favoritas do disco e uma canção surpreendentemente pop. Faço coro com o Beto – aliás, o melhor compositor em atividade atualmente no Brasil – sobre o alívio de não buscar a Verdade, o prazer de admirar a paisagem numa viagem (vida) sem destino (sentido).

não nos interessa a busca da verdade
não encontramos nenhuma
nosso alívio vem daí
só agora descansamos
aceitamos o que somos

e isso é tudo
temos o momento e nenhum caminho pra seguir
e isso é tudo
sem nenhum tormento e nenhum martírio pra sentir
de nenhum caminho pra seguir

O destaque máximo fica para “Nossos Embrulhos” com o início fantástico, com o qual eu abri esse post. O disco fecha com a romântica “Nani” e “Perdoar é a Maior das Injustiças”. O fato é que eu, como grande fã dos caras, gostei de todas as músicas. Ainda tem a misteriosa “Rumo de Tudo” e as tocadas desde ano passado “Forasteiros” e “Medo de Dar Certo”. Todas ótimas.

guarde seu coração tranquilo
sabe-se lá quem vai ver isso
deve não ser um sacrifício
assim deve ser o fim de um ciclo


http://www.violins.com.br/

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Inícios Inesquecíveis: “Lolita”


                “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
                Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
                Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor que um assassino para exibir um estilo floreado.”

Vladmir Nabokov, 1955
Traduzido por Jorio Dauster


sábado, 23 de abril de 2011

Salve Jorge

Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia, viva Jorge!
Jorge é de Capadócia, salve Jorge!





segunda-feira, 18 de abril de 2011

LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean, 1962)


Este é um filme que impressiona. Impressiona com a belíssima fotografia do deserto que, junto com uma trilha monumental, entregam um resultado espetacular, particularmente nas cenas da tempestade de areia. Obra de Freddie Young e Maurice Jarre, respectivamente, que foram devidamente reconhecidos pelo Oscar.

Mesmo reconhecimento não teve Peter O'Toole, que na minha modesta opinião está melhor que Gregory Peck de “O Sol É Para Todos”. Nem Omar Sharif, ou Anthony Quinn, que sequer foi indicado como o líder dos beduínos mercenários.

Mas o que realmente me impressionou foi o fato de se tratar de uma história verídica. T.E. Lawrence realmente existiu e sua participação na Revolta Árabe de 1916-18 foi imprescindível para a campanha contra os turcos, inclusive tomando Damasco. Como mostrado no filme, Lawrence da Arábia – apelido famoso que foi cunhado por Lowell Thomas – era um grande erudito e profundo admirador da cultura árabe, o que o levou a lutar pela união e libertação desse povo, ficando posteriormente bastante desiludido quando da divisão do Império Otomano pela França e o Reino Unido. Inclusive recusou se tornar Comandante Cavaleiro do Império Britânico. Outro ponto de destaque é a modificação sofrida por ele após a tortura física e sexual (esta apenas sugerida no filme) a qual foi submetido quando capturado em Deraa. Enfim, uma figura de todas as formas singular, daquelas que se não existisse, não seria possível ter sido inventada.

De fato, grandes histórias e personagens não são frutos exclusivos da criatividade de roteiristas e escritores, mas também estão por aí esperando para serem vividas e contadas. Se puderem contar com o suporte de um grande filme, melhor ainda.


domingo, 17 de abril de 2011

PÂNICO 4 (Wes Craven, 2011)


Esse filme promete refundar a franquia que fez sucesso nos anos 90. Não consegue, mas é bom rever os personagens. O roteiro é aquilo que todo mundo já viu: um maluco vai de faca em punho matando gente a torto e a direito com o objetivo final de pegar a Sidney Prescott, no meio disso tudo, montes de referências a filmes de terror e à metalinguagem. Não se pode ir ao cinema esperando alguma coisa além disso.

Mas, depois do filme, o que ficou martelando na minha cabeça é o perfil feminista do filme. Por que o assassino é misógino, já que suas vítimas preferenciais são mulheres. E a Sidney tem que enfrentar essa misoginia, que a torna vítima pelo simples fato dela ser quem ela é. Esse enfrentamento é o empoderamento da personagem, que passa a não aceitar o papel pré-determinado de vítima e luta pela sobrevivência com as próprias forças. Outra personagem feminina marcante é Gale Weathers, cuja sagacidade quase sem escrúpulos é evidenciada frente à palermice de Dewey Riley.

No mais o elenco é um presente para fãs de séries, com a eterna Mônica de Friends, as queridas Verônica Mars e Sookie Stackhouse - em participação especialíssima na seqüência inicial - e a Cheeleader de Heroes, super sexy de cabelos curtos. Além de muitas mais. Só ficou faltando a Lorelai de Gilmore Girls.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

A DAMA DO CACHORRINHO


“...Enquanto falava, ele pensava que estava indo para um encontro e que ninguém sabia disso, e provavelmente ninguém jamais saberia. Ele tinha duas vidas: uma evidente, que aqueles que achavam isso importante viam e conheciam, uma vida cheia de verdades convencionais, exatamente igual à vida de seus conhecidos e amigos; e outra vida que transcorria em segredo. Por uma estranha e talvez fortuita coincidência, tudo o que para ele era relevante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, que constituía o âmago de sua vida, não era do conhecimento das outras pessoas, e tudo o que era sua mentira, sua casca, na qual, na qual ele se escondia para encobrir a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, sua “raça inferior”, o comparecimento com a esposa em jubileus, tudo isso transcorria às claras. E ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava sua verdadeira vida, a mais interessante. Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez seja por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade.”

Anton Tchékhov, dezembro de 1899

quarta-feira, 13 de abril de 2011

RIO (Carlos Saldanha, 2011)






Adorei tudo nesse filme. Fazia tempo que eu não ria tanto no cinema. Diversão pura. Jesse Eisenberg está muito engraçado fazendo a arara medrosa. Rodrigo Santoro com seu ornitólogo atrapalhado também. Jamie Foxx e Will i Am super entrosados inclusive nos números musicais. Sobre o Tracy Morgan não precisa de ser dito nada. Tem até participação da Jane Lynch fazendo uma gansa! Assim eu deito e rolo.


A trilha sonora, supervisionada pelo Sergio Mendes, também merece menção, principalmente no número de abertura.


O único porém, pra mim, foi o vilão, que eu não gostei muito.


Finalmente, o Rio e a maneira como é retratado no filme: eu sempre me emociono quando encontro um artista retratando de maneira carinhosa sua terra. Só mesmo esse sentimento de ligação pode explicar os deslumbrantes cenários, realçados pelo 3D. É tudo muito lindo, de cair o queixo mesmo. Se a visão de Saldanha tem aquele filtro saudoso do expatriado já é outro assunto, que eu acho inócuo de ser debatido sobre um filme de animação.




terça-feira, 12 de abril de 2011

OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS (William Wyler, 1946)


Fiquei surpreso ao descobrir que já em 46 Hollywood já conseguia retratar de forma tão madura a situação dos homens que voltaram da guerra.
O filme traça um largo painel da situação social, emocional e familiar encontrada pelos veteranos ao retornar para casa. Os três soldados encontram dificuldades em retomar a vida de antes, já que eles e o mundo no qual viviam foram completamente transformados.
Dana Andrews é Fred Derry, um oficial que, embora tenha ganhado medalhas de honra e bravura, tem que voltar à posição social anterior, trabalhando atrás de um balcão, frustando suas próprias expectativas e de sua fútil esposa. Ele também enfrenta pesadelos com a guerra, sugerindo o grande impacto psicológico sofrido pelos soldados – tema mais desenvolvido posteriormente, em filmes sobre o Vietnã.
Fredric March, embora tenha ganho o Oscar, tem o papel menos relevante dos três, pois o conflito de ter perdido o crescimento dos filhos não é desenvolvido, e também não fica claro se seu alcoolismo é em virtude de algum trauma causado pelo conflito. O ponto alto é o discurso que faz no banco onde trabalha, defendendo ajuda financeira aos veteranos, que estavam à margem da dinâmica capitalista americana.
Mas o destaque é Harold Russell, o único ator a ganhar dois Oscar por um mesmo papel. No caso o de Ator Coadjuvante e um especial “por ser uma inspiração para todos os veteranos”. Realmente amputado das duas mãos, ele apresenta uma comovente atuação da difícil adaptação física e emocional de quem foi afetado na carne pela guerra.
Enfim, fiquei realmente tocado por esse filme, e é dificil imaginar obra mais urgente e definitiva sobre um tema importante para toda uma nação como esse.