sábado, 10 de setembro de 2011

A HORA DOS RUMINANTES


“O sol já ia alto quando Amâncio entrou na venda. Enquanto os outros já almoçavam, Manuel Florêncio ainda vigiava, esperando, matando o tempo em arrumações. Amâncio entrou, olhou o chão varrido, o balcão limpo, a ordem inédita, gritante.
__Compadre, você tem embocadura. Quer ser meu sócio?
Manuel sorriu mas não deixou que Amâncio divagasse.
__Como é que foi? - perguntou fingindo arrumar umas garrafas na prateleira.
Amâncio quebrou a casca de um amendoim, jogou os caroços na boca, falou mastigando:
__Fui e voltei.
__Estou vendo. Mas no entremeio?
Amâncio não respondeu logo. Passou para o outro lado do balcão, correu os olhos pelas prateleiras para ver onde tinha ficado a garrafa em uso, achou, procurou um copo.
__Não fui mordido. Proseamos, brincamos. Gente aberta, sem pé-atrás.
__Jogaram peteca.
__Peteca? Quem disse?
__A gente soube.
Amâncio sorriu, olhou para longe, mudou de assunto:
__Quem sabe, sabe: quem não sabe indague, dizia meu tio Lindolfo. Ele foi padre, já contei? Padre assentado, cumpridor. Irmão de minha mãe. Um dia ele largou batina, largou rosário e foi ser revoltoso. Minha mãe quase morreu de paixão. Dizem que ele estanhou muita gente em combate. Foi anistiado. Creio que ainda vive, é professor de latim não sei onde. Eu tive um retrato dêle que saiu num jornal. Fardado de oficial, com dois revólveres na cintura. Pelo tamanho das capas deviam ser parabelos. Eu é que precisava ter mão num daqueles. Meu tio Lindolfo. Pe. Lindolfo, de parabelo na cintura. Se minha mãe visse não acreditava. Mas, mesmo fardado, é a cara de minha mãe. Sempre teve feição de mulher, diziam lá em casa.
Enquanto falava, Amâncio virou dois copinhos. Agora olhava do copo para a garrafa e vice-versa, querendo continuar e não querendo. Manuel Florêncio esperava sem pressa. Conhecia Amâncio, sabia que não adiantava imprensá-lo. Amâncio era burro manhoso, dêsses que empacam para ver o desespero do dono.
Amâncio virou mais um copo depressa, escondido, como se não fosse o dono de toda a cachaça da venda; machucou bem o gosto na boca, demorando na apreciação.
__Pinga boa eles têm lá. Ainda está na pipa. Vou ganhar umas garrafas quando engarrafarem. E dizem que ainda não está no ponto. Pra mim já está pra lá do ponto. Deve ser desculpa de quem não quer dar. Mas as minhas eu trago, não tem barriga-me-dói.”

José J. Veiga, 1966