“O sol
já ia alto quando Amâncio entrou na venda. Enquanto os outros já
almoçavam, Manuel Florêncio ainda vigiava, esperando, matando o
tempo em arrumações. Amâncio entrou, olhou o chão varrido, o
balcão limpo, a ordem inédita, gritante.
__Compadre,
você tem embocadura. Quer ser meu sócio?
Manuel
sorriu mas não deixou que Amâncio divagasse.
__Como é
que foi? - perguntou fingindo arrumar umas garrafas na prateleira.
Amâncio
quebrou a casca de um amendoim, jogou os caroços na boca, falou
mastigando:
__Fui e
voltei.
__Estou
vendo. Mas no entremeio?
Amâncio
não respondeu logo. Passou para o outro lado do balcão, correu os
olhos pelas prateleiras para ver onde tinha ficado a garrafa em uso,
achou, procurou um copo.
__Não
fui mordido. Proseamos, brincamos. Gente aberta, sem pé-atrás.
__Jogaram
peteca.
__Peteca?
Quem disse?
__A
gente soube.
Amâncio
sorriu, olhou para longe, mudou de assunto:
__Quem
sabe, sabe: quem não sabe indague, dizia meu tio Lindolfo. Ele foi
padre, já contei? Padre assentado, cumpridor. Irmão de minha mãe.
Um dia ele largou batina, largou rosário e foi ser revoltoso. Minha
mãe quase morreu de paixão. Dizem que ele estanhou muita gente em
combate. Foi anistiado. Creio que ainda vive, é professor de latim
não sei onde. Eu tive um retrato dêle que saiu num jornal. Fardado
de oficial, com dois revólveres na cintura. Pelo tamanho das capas
deviam ser parabelos. Eu é que precisava ter mão num daqueles. Meu
tio Lindolfo. Pe. Lindolfo, de parabelo na cintura. Se minha mãe
visse não acreditava. Mas, mesmo fardado, é a cara de minha mãe.
Sempre teve feição de mulher, diziam lá em casa.
Enquanto
falava, Amâncio virou dois copinhos. Agora olhava do copo para a
garrafa e vice-versa, querendo continuar e não querendo. Manuel
Florêncio esperava sem pressa. Conhecia Amâncio, sabia que não
adiantava imprensá-lo. Amâncio era burro manhoso, dêsses que
empacam para ver o desespero do dono.
Amâncio
virou mais um copo depressa, escondido, como se não fosse o dono de
toda a cachaça da venda; machucou bem o gosto na boca, demorando na
apreciação.
__Pinga
boa eles têm lá. Ainda está na pipa. Vou ganhar umas garrafas
quando engarrafarem. E dizem que ainda não está no ponto. Pra mim
já está pra lá do ponto. Deve ser desculpa de quem não quer dar.
Mas as minhas eu trago, não tem barriga-me-dói.”
José
J. Veiga, 1966